Jair Messias Bolsonaro: a história completa do capitão que chegou à Presidência
Redação Dedireita · 26 de outubro de 2026

Poucas figuras públicas da história recente do Brasil despertaram tanta paixão, tanto debate e tanta mobilização quanto Jair Messias Bolsonaro. Capitão reformado do Exército, deputado federal por sete mandatos consecutivos e 38º presidente da República, ele saiu da condição de parlamentar considerado periférico em Brasília para se tornar o principal nome da direita brasileira e o líder de um movimento político que reorganizou o mapa eleitoral do país. Esta reportagem reconstitui, com base em fontes públicas e verificáveis, toda a sua trajetória: a infância no interior paulista, a formação militar, os quase trinta anos de Congresso, a campanha de 2018, os quatro anos de governo, a derrota de 2022 e os processos judiciais que marcam a fase mais recente de sua vida.
Origens: uma família de imigrantes no interior de São Paulo
Jair Messias Bolsonaro nasceu em 21 de março de 1955, em Glicério, pequeno município do noroeste do estado de São Paulo. É filho de Percy Geraldo Bolsonaro, dentista prático, e de Olinda Bonturi Bolsonaro, dona de casa. Pelo lado paterno e materno, a família descende de imigrantes italianos e alemães que chegaram ao Brasil no fim do século XIX e no início do século XX, como tantas outras famílias que ajudaram a ocupar e desenvolver o interior paulista.
O segundo nome, Messias, foi escolhido pela mãe como gesto de gratidão. Segundo relatos da própria família, a gravidez foi difícil, e o nome foi uma forma de agradecer pelo nascimento do filho. Esse detalhe, que décadas depois seria lembrado por apoiadores durante as campanhas eleitorais, ajuda a compreender a importância da religiosidade na formação do futuro presidente.
A família mudou-se algumas vezes durante a infância de Jair, até se fixar em Eldorado, no Vale do Ribeira, região do sul paulista então conhecida pela pobreza, pela agricultura familiar e pela presença da Mata Atlântica. Foi lá que ele passou boa parte da juventude, ao lado dos irmãos. Eldorado, cidade pequena e de vida simples, marcaria profundamente sua visão de mundo: a valorização do trabalho, da família e da fé, além de uma desconfiança instintiva em relação às elites políticas dos grandes centros.
O episódio de Lamarca e a escolha pela carreira militar
Um acontecimento ocorrido em 1970 costuma ser apontado pelo próprio Bolsonaro como decisivo para sua escolha profissional. Naquele ano, o Vale do Ribeira foi palco de operações do Exército contra um grupo guerrilheiro liderado por Carlos Lamarca, ex-capitão que havia desertado para aderir à luta armada contra o regime militar. Ainda adolescente, Jair acompanhou de perto a movimentação das tropas na região de Eldorado e, segundo seus relatos, chegou a colaborar com informações sobre a geografia local.
O contato com os militares despertou nele o desejo de seguir a carreira das armas. Depois de estudar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas, ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende (RJ), a principal escola de formação de oficiais combatentes do Exército Brasileiro. Concluiu o curso em 1977, na arma de Artilharia.
A vida na caserna
Como oficial, Bolsonaro serviu em unidades de artilharia e fez o curso de paraquedista, passando a integrar a Brigada de Infantaria Paraquedista, no Rio de Janeiro, uma das tropas de elite do Exército. Também concluiu o curso de mestre em saltos e se destacou em atividades de educação física. Os colegas da época o descrevem como um oficial enérgico, competitivo e de temperamento forte.
Foi justamente esse temperamento que o levou ao primeiro grande episódio público de sua vida. Em setembro de 1986, já capitão, Bolsonaro assinou um artigo na revista Veja intitulado "O salário está baixo", no qual criticava a remuneração dos militares e afirmava que a evasão de cadetes e oficiais não se devia a desvios de conduta, mas às dificuldades financeiras da tropa. A publicação de um texto opinativo sem autorização superior era considerada transgressão disciplinar, e ele foi punido com quinze dias de prisão. O episódio, no entanto, deu-lhe enorme popularidade entre militares de baixa patente e suas famílias, que se viram representados por aquela reivindicação.
No ano seguinte, em 1987, a mesma revista publicou reportagem atribuindo a Bolsonaro e a outro oficial um suposto plano para explodir bombas em unidades militares como forma de pressionar por reajuste salarial. Ele negou veementemente a acusação. O caso foi parar no Superior Tribunal Militar (STM), que, em 1988, o absolveu. Pouco depois, Bolsonaro deixou o serviço ativo e foi transferido para a reserva remunerada no posto de capitão, iniciando uma nova etapa de sua vida: a política.
A entrada na política: vereador no Rio de Janeiro
A popularidade conquistada entre militares e seus familiares serviu de base para a primeira candidatura. Em 1988, Bolsonaro foi eleito vereador da cidade do Rio de Janeiro pelo Partido Democrata Cristão (PDC). Na Câmara Municipal, manteve como bandeira principal a defesa dos interesses da categoria militar, tema que o acompanharia por toda a carreira legislativa.
O mandato de vereador durou pouco. Já em 1990, ele disputou uma vaga na Câmara dos Deputados e foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. Era o começo de uma trajetória de quase três décadas no Congresso Nacional.
Sete mandatos na Câmara dos Deputados
Entre 1991 e 2018, Bolsonaro foi reeleito sucessivamente, cumprindo sete mandatos como deputado federal. Ao longo desse período, passou por diversos partidos, como PDC, PPR, PPB, PTB, PFL, PP e PSC, algo comum entre parlamentares do chamado baixo clero, que não ocupavam posições de liderança nas grandes legendas. Em 2018, filiou-se ao PSL, partido pelo qual disputaria a Presidência. Anos depois, em 2021, ingressaria no Partido Liberal (PL), sua legenda atual.
Durante a maior parte de sua passagem pela Câmara, Bolsonaro foi visto como um parlamentar de nicho. Aprovou poucos projetos de sua autoria e concentrou sua atuação em temas ligados às Forças Armadas, à segurança pública e ao combate ao crime. Um dos projetos mais conhecidos de sua autoria foi a proposta de voto impresso, aprovada pelo Congresso na minirreforma eleitoral de 2015 e posteriormente suspensa pelo Supremo Tribunal Federal.
O que o diferenciava da maioria dos colegas era o estilo. Bolsonaro falava de forma direta, sem filtros e frequentemente provocativa. Defendia abertamente o legado dos governos militares, criticava os direitos humanos quando entendia que eles protegiam criminosos, combatia a pauta progressista em temas de costumes e se opunha frontalmente aos governos do PT. Essas posições lhe renderam críticas duras da imprensa e de adversários, processos no Conselho de Ética e ações judiciais, mas também consolidaram uma imagem de autenticidade junto a uma parcela crescente do eleitorado.
Nas eleições de 2014, esse crescimento ficou evidente. Bolsonaro foi o deputado federal mais votado do estado do Rio de Janeiro, com mais de 464 mil votos. Era o sinal de que suas ideias, antes restritas a um público específico, começavam a ganhar espaço em um país que atravessava profunda crise econômica, política e moral.
O contexto: crise, Lava Jato e a ascensão de uma nova direita
Para compreender a ascensão de Bolsonaro, é preciso olhar para o Brasil da década de 2010. As manifestações de junho de 2013 revelaram um enorme descontentamento popular com a classe política. A partir de 2014, a Operação Lava Jato expôs esquemas bilionários de corrupção envolvendo a Petrobras, grandes empreiteiras e partidos políticos. Ao mesmo tempo, o país mergulhava na pior recessão de sua história recente, com desemprego em alta e queda da renda das famílias.
Em 2015 e 2016, milhões de brasileiros foram às ruas em manifestações verde e amarelas que pediam o impeachment da presidente Dilma Rousseff, afastada definitivamente pelo Senado em agosto de 2016. Nesse ambiente, surgiu uma nova direita, organizada principalmente nas redes sociais, que defendia o liberalismo econômico, o conservadorismo nos costumes, o combate à corrupção e o endurecimento da segurança pública. Bolsonaro, que já defendia boa parte dessas bandeiras havia anos, tornou-se o rosto natural desse movimento.
Seu uso das redes sociais também foi decisivo. Muito antes de outros políticos tradicionais, ele percebeu o potencial do Facebook, do YouTube e do WhatsApp para falar diretamente com o eleitor, sem a intermediação dos grandes veículos de comunicação. Transmissões ao vivo, vídeos curtos e mensagens compartilhadas em grupos de família transformaram um deputado de pouco tempo de televisão em um fenômeno de audiência digital.
A campanha de 2018 e o atentado em Juiz de Fora
Em 2018, Bolsonaro lançou-se candidato à Presidência da República pelo PSL, tendo como vice o general da reserva Hamilton Mourão. Com pouquíssimo tempo de propaganda no rádio e na televisão e um partido pequeno, a campanha apostou nas redes sociais, nos atos de rua e em um discurso centrado em quatro eixos: combate à corrupção, segurança pública, defesa da família e liberalismo econômico. Para comandar a área econômica, anunciou o economista Paulo Guedes, formado pela Universidade de Chicago, como seu futuro ministro.
Em 6 de setembro de 2018, durante um ato de campanha no centro de Juiz de Fora (MG), Bolsonaro foi esfaqueado no abdômen enquanto era carregado nos ombros por apoiadores. O agressor, Adélio Bispo de Oliveira, foi preso em flagrante. O candidato sofreu graves lesões no intestino, perdeu muito sangue e passou por cirurgias de emergência, primeiro na Santa Casa de Juiz de Fora e depois no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. A Polícia Federal concluiu, em duas investigações, que Adélio agiu sozinho. Mais tarde, a Justiça considerou o agressor inimputável por transtorno mental, e ele foi submetido a medida de segurança.
O atentado comoveu o país e mudou a dinâmica da campanha. Afastado das ruas e dos debates para se recuperar, Bolsonaro continuou se comunicando pelas redes sociais, de dentro do hospital, e viu suas intenções de voto crescerem. No primeiro turno, em 7 de outubro, obteve 46% dos votos válidos. No segundo turno, em 28 de outubro de 2018, venceu o candidato do PT, Fernando Haddad, com 55,13% dos votos válidos, ou mais de 57,7 milhões de votos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
A posse e a formação do governo
Em 1º de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro tomou posse como 38º presidente da República Federativa do Brasil. No discurso no parlatório do Palácio do Planalto, prometeu libertar o país "do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto". Ao seu lado estava a primeira-dama Michelle Bolsonaro, que fez um discurso histórico em Língua Brasileira de Sinais (Libras).
O ministério reuniu perfis variados. Paulo Guedes assumiu um superministério da Economia, que fundiu as antigas pastas da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio. O ex-juiz Sergio Moro, símbolo da Lava Jato, assumiu o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Militares ocuparam postos estratégicos, e técnicos com perfil liberal foram nomeados para comandar bancos públicos e empresas estatais. O governo prometia reduzir o tamanho do Estado, privatizar estatais, simplificar a burocracia e combater o crime organizado.
A agenda econômica: reformas e liberdade econômica
O primeiro grande desafio do governo foi a reforma da Previdência, considerada indispensável para equilibrar as contas públicas. Após meses de negociação com o Congresso, a proposta foi aprovada e promulgada como Emenda Constitucional nº 103, em novembro de 2019. A reforma estabeleceu idade mínima para aposentadoria e novas regras de contribuição, com economia estimada de cerca de 800 bilhões de reais em dez anos. Governos anteriores haviam tentado mudanças semelhantes sem sucesso.
Também em 2019, foi sancionada a Lei da Liberdade Econômica (Lei nº 13.874), que reduziu exigências burocráticas para a abertura e o funcionamento de empresas, especialmente as de baixo risco, e estabeleceu princípios de presunção de boa-fé do empreendedor. Para o pequeno e o médio empresário, a medida foi um marco: atividades simples passaram a dispensar alvarás e licenças prévias.
Nos anos seguintes, outras medidas de impacto foram aprovadas. O novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026, de 2020) abriu o setor à iniciativa privada, com a meta de universalizar o acesso a água tratada e esgoto até 2033. A Lei Complementar nº 179, de 2021, garantiu autonomia ao Banco Central, com mandatos fixos para seus dirigentes. Em 2022, foi concluída a capitalização da Eletrobras, que reduziu a participação da União na maior empresa de energia elétrica da América Latina.
Durante o governo, o Banco Central lançou o Pix, em novembro de 2020. O sistema de pagamentos instantâneos foi desenvolvido pela autoridade monetária e rapidamente se tornou um dos meios de pagamento mais usados do mundo. Também houve leilões de infraestrutura em aeroportos, rodovias, portos e ferrovias, além do leilão do 5G, em 2021, um dos maiores da história das telecomunicações brasileiras.
No campo externo, o Brasil concluiu, em junho de 2019, as negociações políticas do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, discutido havia duas décadas. O governo também deu início ao processo formal de adesão do país à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
A pandemia de covid-19
Em março de 2020, a pandemia de covid-19 chegou ao Brasil e mudou completamente o rumo do governo. A crise sanitária se transformou também em crise econômica e política. Bolsonaro defendeu desde o início que a economia não poderia parar e criticou duramente as medidas de isolamento e fechamento do comércio adotadas por governadores e prefeitos. Para ele, o desemprego e a fome causariam danos tão graves quanto o próprio vírus. A posição gerou intensos conflitos com governadores, com o Supremo Tribunal Federal e com parte da imprensa, e foi alvo de fortes críticas de especialistas em saúde.
Para enfrentar os efeitos econômicos da pandemia, o governo criou, com aprovação do Congresso, o Auxílio Emergencial, que chegou a atender cerca de 68 milhões de brasileiros em 2020. Também foram lançados programas de manutenção de empregos, que permitiram a redução de jornada e a suspensão de contratos com compensação paga pelo governo, além de linhas de crédito para micro e pequenas empresas, como o Pronampe. Essas medidas ajudaram a amortecer a queda da atividade econômica, que em 2020 foi menor do que a de muitos países desenvolvidos.
A condução da área da saúde, porém, foi marcada por trocas sucessivas no Ministério da Saúde, por divergências sobre tratamentos e pelo debate sobre o ritmo de compra de vacinas. Em 2021, o Senado instalou a CPI da Covid, que investigou ações e omissões do governo federal e, em seu relatório final, pediu o indiciamento do presidente por diversos crimes. As conclusões foram rejeitadas pelo governo e por seus aliados, que acusaram a comissão de ter caráter político. O Brasil registrou cerca de 700 mil mortes pela doença, um dos maiores números absolutos do mundo. A vacinação em massa, iniciada em janeiro de 2021, avançou ao longo daquele ano com imunizantes distribuídos pelo Programa Nacional de Imunizações.
Conflitos institucionais e a relação com o Supremo
A relação entre Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal foi tensa durante todo o mandato. O presidente e seus apoiadores criticavam o que consideravam ativismo judicial e interferência do Judiciário em decisões do Executivo, como as que reconheceram a autonomia de estados e municípios nas medidas contra a pandemia. Do outro lado, ministros do STF abriram inquéritos, como o das fake news e o das milícias digitais, que tinham como alvo aliados e apoiadores do presidente.
Em abril de 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça acusando o presidente de tentar interferir politicamente na Polícia Federal, acusação que Bolsonaro negou. O caso deu origem a um inquérito no STF que acabou arquivado. Os atos de 7 de setembro, especialmente o de 2021, reuniram multidões em Brasília e São Paulo e foram marcados por discursos duros contra integrantes do Supremo.
Outro ponto permanente de atrito foi o sistema eleitoral. Defensor histórico do voto impresso, Bolsonaro questionou publicamente a segurança das urnas eletrônicas. A proposta de emenda constitucional que instituía o voto impresso auditável foi derrotada na Câmara dos Deputados em agosto de 2021. O Tribunal Superior Eleitoral sempre sustentou que as urnas são seguras e auditáveis, e nunca foi comprovada fraude nas eleições brasileiras.
Programas sociais e a segunda metade do mandato
Em novembro de 2021, o governo substituiu o Bolsa Família pelo Auxílio Brasil, com valor médio maior. Em 2022, uma emenda constitucional elevou temporariamente o benefício para 600 reais, criou o auxílio para caminhoneiros e taxistas e ampliou o vale-gás. Críticos apontaram o caráter eleitoral das medidas, aprovadas a poucos meses da eleição. O governo argumentou que elas eram necessárias diante da alta dos combustíveis e dos alimentos provocada pela guerra na Ucrânia. No mesmo período, a redução de tributos sobre combustíveis e energia ajudou a derrubar a inflação no segundo semestre de 2022, e o desemprego terminou o ano em queda.
No plano dos costumes e da segurança, o governo editou decretos que ampliaram o acesso a armas de fogo para cidadãos, colecionadores, atiradores e caçadores, uma das principais promessas de campanha. Também se posicionou contra a legalização do aborto e das drogas, defendeu a escola sem doutrinação ideológica e incentivou a criação de escolas cívico-militares. Na política externa, aproximou-se dos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump e de Israel, e adotou postura crítica aos regimes de esquerda da América Latina.
A eleição de 2022
Em 2022, Bolsonaro disputou a reeleição pelo Partido Liberal, tendo como vice o general Walter Braga Netto. O principal adversário foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia recuperado os direitos políticos em 2021, depois que o STF anulou suas condenações na Lava Jato por questões de competência e declarou a suspeição do ex-juiz Sergio Moro.
A campanha foi a mais polarizada da história democrática do país. No primeiro turno, em 2 de outubro, Lula ficou em primeiro lugar, com 48,4% dos votos válidos, contra 43,2% de Bolsonaro, que teve desempenho muito acima do previsto pelas pesquisas. A direita também elegeu as maiores bancadas no Senado e na Câmara. No segundo turno, em 30 de outubro de 2022, Lula venceu com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro, que recebeu mais de 58,2 milhões de votos. Foi a disputa presidencial mais apertada desde a redemocratização.
Após o resultado, apoiadores do presidente bloquearam rodovias e montaram acampamentos em frente a quartéis do Exército em várias cidades, pedindo intervenção das Forças Armadas. Bolsonaro demorou a se manifestar e não reconheceu explicitamente a derrota, mas autorizou o início da transição. Em 30 de dezembro de 2022, dois dias antes do fim do mandato, viajou para os Estados Unidos e não participou da cerimônia de transmissão da faixa presidencial.
O 8 de janeiro e a volta ao Brasil
Em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse de Lula, milhares de manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília: o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro, que estava nos Estados Unidos, condenou as depredações e invasões em suas redes sociais. Centenas de pessoas foram presas, e o episódio passou a ser investigado como parte de uma suposta tentativa de ruptura institucional.
O ex-presidente retornou ao Brasil em 30 de março de 2023 e foi recebido por apoiadores em Brasília. Assumiu a presidência de honra do PL e passou a percorrer o país, mantendo-se como a principal liderança da oposição.
A inelegibilidade decretada pelo TSE
Em junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral declarou Bolsonaro inelegível por oito anos, contados a partir da eleição de 2022, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. O processo tratava de uma reunião com embaixadores estrangeiros, realizada no Palácio da Alvorada em julho de 2022 e transmitida pela TV Brasil, na qual o então presidente apresentou questionamentos sobre o sistema eleitoral. Em outubro de 2023, o TSE aplicou nova condenação por abuso de poder nas comemorações do Bicentenário da Independência, em 7 de setembro de 2022. A defesa recorreu e sustentou que o ex-presidente apenas exerceu sua liberdade de expressão.
O julgamento no Supremo e a condenação
As investigações da Polícia Federal sobre os eventos de 2022 e 2023 resultaram, em fevereiro de 2025, em denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Bolsonaro e outros 33 acusados, incluindo ex-ministros e militares de alta patente. Segundo a acusação, teria havido uma trama para impedir a posse do presidente eleito. A defesa sempre negou qualquer participação do ex-presidente em plano golpista e apontou cerceamento de defesa e perseguição política.
Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF, por quatro votos a um, condenou Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio público e deterioração de patrimônio tombado. O ministro Luiz Fux foi o único a votar pela absolvição. Segundo o STF, o cumprimento da pena começou em 25 de novembro de 2025, quando terminou o prazo para recursos. O ex-presidente ficou inicialmente na Superintendência da Polícia Federal em Brasília e, em janeiro de 2026, foi transferido para uma sala de Estado-Maior no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecida como "Papudinha".
Em março de 2026, depois de ser internado com broncopneumonia, Bolsonaro recebeu do ministro Alexandre de Moraes autorização para cumprir prisão domiciliar humanitária, inicialmente por 90 dias. Em julho, o ministro manteve a domiciliar, determinou a entrega das armas registradas em nome do ex-presidente e, mais tarde, proibiu visitas e a divulgação de manifestos políticos, segundo o próprio STF, o G1 e o Estadão. Em outubro de 2026, o ministro Kassio Nunes Marques, relator de um pedido de revisão criminal da condenação, afirmou que pretende levar o caso ao plenário do Supremo somente após o segundo turno das eleições, conforme noticiou a Folha de S.Paulo.
Para seus apoiadores, o processo representa uma perseguição política sem precedentes contra o maior líder da direita brasileira. Bolsonaro e seus advogados repetem que ele jamais atentou contra a democracia. Para a acusação e para a maioria da Primeira Turma, as provas demonstraram a tentativa de ruptura. O debate sobre o caso permanece aberto na sociedade, no Congresso, onde tramitaram propostas de anistia, e no próprio Judiciário.
Família e vida pessoal
Bolsonaro foi casado três vezes. Do primeiro casamento, com Rogéria Nantes Braga, nasceram Flávio, Carlos e Eduardo, que seguiram carreira política: Flávio é senador pelo Rio de Janeiro, Carlos foi vereador na capital fluminense por vários mandatos e Eduardo foi o deputado federal mais votado do país em 2018. Do segundo casamento, com Ana Cristina Siqueira Valle, nasceu Jair Renan. Em 2013, casou-se com Michelle de Paula Firmo Reinaldo, mãe de Laura, sua única filha, nascida em 2010. Michelle também tem uma filha de relacionamento anterior.
Michelle Bolsonaro, evangélica, teve papel importante na aproximação do marido com o eleitorado cristão e se destacou na defesa de pessoas com deficiência e doenças raras. Depois do governo, assumiu a presidência do PL Mulher e passou a ser apontada como um dos nomes fortes da direita para disputas futuras.
A fé ocupa lugar central na vida pública do ex-presidente. Católico de formação, ele frequenta também cultos evangélicos e foi batizado no rio Jordão, em Israel, em 2016, pelo pastor Everaldo Pereira. O slogan "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos", inspirado em um grito de guerra da Brigada Paraquedista, sintetiza a combinação de patriotismo e religiosidade que marcou sua trajetória.
A saúde do ex-presidente também passou a ser tema constante desde o atentado de 2018. As sequelas da facada exigiram diversas cirurgias abdominais ao longo dos anos, além de internações por obstrução intestinal, crises de soluço e, mais recentemente, problemas respiratórios.
Legado e influência
Independentemente da avaliação que se faça de seu governo, é inegável que Jair Bolsonaro transformou a política brasileira. Ele tirou a direita da defensiva, deu voz a milhões de eleitores conservadores que não se sentiam representados e mostrou que era possível vencer uma eleição presidencial com pouco tempo de televisão, um partido pequeno e forte presença nas redes sociais. Muitos dos deputados, senadores e governadores eleitos em 2018 e 2022 devem sua vitória, em grande parte, à associação com seu nome.
Na economia, seus defensores destacam a reforma da Previdência, a Lei da Liberdade Econômica, o Marco do Saneamento, a autonomia do Banco Central, as concessões de infraestrutura e a resposta social à pandemia como conquistas duradouras. Ressaltam ainda a redução dos indicadores de criminalidade em vários estados e a ausência de grandes escândalos de corrupção envolvendo diretamente o núcleo do governo. Os críticos, por outro lado, apontam a condução da pandemia, o aumento do desmatamento na Amazônia, a tensão permanente com as instituições e os episódios que levaram às condenações no TSE e no STF.
Para o empreendedor brasileiro, em especial o pequeno comerciante, o debate trazido por Bolsonaro e pela nova direita sobre menos burocracia, menos impostos, mais liberdade econômica e mais segurança continua mais atual do que nunca. Ideias que antes eram tratadas como marginais passaram a fazer parte do centro do debate nacional.
Conclusão
A trajetória de Jair Messias Bolsonaro é uma das mais extraordinárias da política brasileira. O menino do Vale do Ribeira se tornou oficial paraquedista. Depois, foi capitão punido por defender o salário da tropa, deputado do baixo clero por quase trinta anos e, por fim, presidente da República eleito com quase 58 milhões de votos. Sobreviveu a um atentado que poderia ter tirado sua vida, governou o país durante a maior crise sanitária do século e quase foi reeleito na disputa mais acirrada da história.
Hoje, condenado pelo Supremo e afastado das urnas pelo TSE, ele continua no centro da vida nacional, como símbolo para seus apoiadores e como alvo para seus adversários. Seja qual for o desfecho dos processos que ainda tramitam, sua influência sobre a direita brasileira e sobre o rumo político do país já está escrita na história.
Fontes consultadas
Tribunal Superior Eleitoral (TSE): resultados oficiais das eleições de 2018 e 2022 e decisões sobre a inelegibilidade (tse.jus.br).
Supremo Tribunal Federal (STF): "STF mantém ex-presidente Bolsonaro em prisão domiciliar", 3 de julho de 2026, e informações sobre a Ação Penal 2668 (noticias.stf.jus.br).
Câmara dos Deputados: biografia e histórico de mandatos do deputado Jair Bolsonaro (camara.leg.br).
Presidência da República / Biblioteca da Presidência: galeria de presidentes e retrato oficial (gov.br/planalto).
Planalto, legislação federal: Emenda Constitucional nº 103/2019, Lei nº 13.874/2019, Lei nº 14.026/2020 e Lei Complementar nº 179/2021 (planalto.gov.br).
Banco Central do Brasil: lançamento do Pix em novembro de 2020 (bcb.gov.br).
G1: "Bolsonaro: Moraes mantém prisão domiciliar e exige entrega de armas", 3 de julho de 2026.
Estadão: "Moraes mantém Bolsonaro em prisão domiciliar, mas proíbe visitas e manifestos políticos e eleitorais", 17 de julho de 2026.
O Globo: "Da Papudinha à domiciliar sem prazo: entenda as decisões de Moraes sobre a pena de Bolsonaro", 4 de julho de 2026.
Folha de S.Paulo: "Kassio confirma análise sobre soltura de Bolsonaro após eleição", 7 de outubro de 2026.
Foto da capa: retrato oficial do Presidente da República, de Alan Santos/PR (Agência Brasil), licença Creative Commons CC BY 3.0 BR, via Wikimedia Commons.
